quarta-feira, 31 de maio de 2017

AQUILEGIA - COLOMBINA


SIMBOLISMO


As flores da columbina, Aquilegia vulgaris, pela sua forma bizarra, adquiriram nas antigas tradições um papel simbólico relevante. Na cultura greco-romana o esporão presente nas suas pétalas foi assemelhado a um falo, daí esta planta ser consagrada a Afrodite (Vénus). Os celtas, também, a veneravam, pois, consideravam que as mesmas pétalas poderiam ser como portas que conduziriam a um outro mundo. 

Nas tradições cristãs essa especial configuração associou-a ao Espírito Santo, como louvor divino pela reminiscência com cinco pombas sentadas juntas, facto de ser apelidada, em algumas regiões da Áustria, por “Pequena pomba”.


O simbolismo desta flor está, vulgarmente, associado ao valor simbólico dos números. Como tal, os limbos tripartidos das suas folhas foram vistos como um sinal da Santíssima Trindade, assim como três flores de colombina um sinal das três virtudes cristãs: fé, esperança e caridade, ou num ramo de sete flores, as sete oferendas do Espírito Santo: sabedoria, inteligência, conselho, força, conhecimento, piedade e temor a Deus. 



Na arte medieval, a colombina é considerada, por alguns autores, a flor de Cristo, aparecendo pintada, com frequência, em pinturas de Maria e Jesus, assim como na história da salvação, como sinal da Paixão e Ressurreição de Cristo. No retábulo de Hugo van der Goes (Uffizi, Florença) as flores da colombina aparecem em posição de destaque, pousadas no chão, em frente a Maria e Jesus.
Apesar da maior frequência de imagens estar associada a Cristo, esta flor também ocorre em pinturas com santos e profetas, assim como em quadros de reformistas protestantes (Lucas Cranach, séc. XVI).

As cores mais frequentes desta flor que são o azul, o violeta e o amarelo, são, também, interpretadas na linguagem das cores, como paixão e penitência (violeta) ou vivacidade e luz (amarelo).

Outras associações desta flor deverão ser mencionadas tais como a fidelidade ou proteção contra forças malignas.

Na linguagem poética a beleza simbólica da colombina está, também, presente. Shakespeare cita-a nas suas peças, onde Ofélia na sua loucura a colhe, embora aí como símbolo de infidelidade e ingratidão. 

terça-feira, 4 de abril de 2017

ASFÓDELOS


O limbo que marca a transição entre os vivos e os mortos foi sempre um local envolvido pelas brumas do mistério. Nele encontra-se, também, uma planta que marca a passagem entre a luz e as trevas, a alegria e a tristeza, a fugaz liberdade da vida e a prisão perpétua da morte. Essa planta é o asfódelo ou abrótea.

No mito de Perséfone esta, ao ser retida no Hades, vai sentir toda a angústia da privação da companhia de sua mãe, Deméter, do seu amor e de todas as belezas da natureza que ambas, dia após dia, cuidavam. Porém, nessa mágoa e saudade, ela deixa a marca da sua passagem quando caminha para o submundo, indicando aos que a vão seguir um sinal da sua generosidade, fazendo brotar como alimento, para os que já não pertencem à vida, campos de asfódelos na lúgubre entrada do seu túmulo.



Em sentido inverso, as flores desta planta brotam, também, no final do inverno, crescendo para o mundo exterior, acompanhando e anunciando o alegre reencontro de Perséfone com sua mãe, na chegada da primavera.

Esta planta tem, pois, um duplo significado: o alimento dado ao ser humano no seu caminho para a morte, assim como, passando pela morte, a ressurreição da alma para a vida.



Helena Cruz

terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

ANÉMONA



A simbologia da flor da anémona (Anemone coronaria), muito valorizada na antiga Grécia, tem origem no mito associado ao amor intenso e exuberante, embora frágil e fugaz, nascido entre a deusa Afrodite e o belo Adónis.

O jovem (fruto da relação incestuosa entre Mirra e o seu pai Cíniras) estando um dia a caçar longe da proteção da sua amada Afrodite foi, violentamente, atacado por um javali (talvez enviado pelo ciumento Marte) que o feriu mortalmente numa virilha. Sentindo a morte do amado a deusa correu prontamente em seu auxílio, ferindo-se no pé com um espinho, cujo sangue tingiu uma rosa branca que, a partir daí, se tornou vermelha pelo sangue de Afrodite.

"The Awakening of Adonis - O Despertar de Adónis" -  John William Waterhouse (1849-1917)

A deusa chorou perdidamente por ser incapaz de reanimar o seu amado e de comover as parcas a evitar sua morte. Ajoelhou-se junto a ele e tocou na terra ensanguentada, exclamando que ela ou o mundo jamais o esqueceriam, pois do seu sangue iria sempre nascer uma flor primaveril embora, como ele, de vida breve e destinada a morrer.

O sangue de Adónis transformou-se na anémona, filha do vento (em grego, Άνεμοι — "Anemoi"), que logo ao florescer perde as pétalas com o seu sopro . Esta flor teria assim nascido do sangue do belo mancebo, abundando na Primavera pelas costas do Mediterrâneo.


Os "jardins de Adónis" tem origem num culto fúnebre feminino associado a Afrodite, celebrado anualmente na Primavera, em várias regiões sírias e do mundo antigo, onde as sementes da anémona são semeadas em vasos e regadas com água quente, estimulando o seu rápido crescimento embora a curta permanência.


Adaptado de:
Mitos e Lendas de todo o Mundo
Mitologia Clássica




segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

AÇAFRÃO





O açafrão (Crocus sativus) é uma planta que produz uma bela flor de cor anilada com longos estigmas vermelhos cujas diversas qualidades são valorizadas desde tempos imemoriais.

A sua origem está situada na larga zona das civilizações mais antigas do mediterrâneo oriental, estendendo-se desde o próximo oriente até à Índia. A utilização mais antiga comprovada por esta planta, manifesta-se como pigmento usado na coloração de pinturas rupestres, tendo estas propriedades corantes sido, desde há muito, largamente utilizadas na coloração de tecidos muitas vezes de uso cerimonial. Porém, as propriedades desta substância amarela proveniente dos longos filamentos da flor revelaram-se, também, de elevado valor terapêutico, afrodisíaco e gastronómico. Como tal, a reunião de todas estas qualidades associadas à extrema beleza floral conduziu ao valor simbólico que ela despertou desde o alvorecer das mais prestigiadas civilizações da antiguidade. A designação vulgar “açafrão” deriva do latim safranum que por sua vez deriva do árabe z’fram (amarelo), embora a origem da designação científica do género Crocus se refira a uma das histórias mitológicas gregas associada à sua simbologia.



Estudos botânicos consideram que o açafrão teve origem nos solos rochosos e pedregosos da ilha de Creta a partir de uma espécie selvagem que lhe deu origem, Crocus cartwrightianus, perdendo depois a capacidade de se reproduzir naturalmente, sendo apenas obtida por multiplicação vegetativa.
Desse passado minoico são encontradas algumas pinturas murais na ilha vulcânica de Thera (Santorini) com várias imagens decorativas de flores de açafrão sendo colhidas por jovens, fazendo referência ao seu cultivo e sagração no culto de Ariadne, deusa cretense da vegetação, como símbolo da renovação primaveril da natureza e da bem-aventurança celeste. Há, também, provas de que os hititas (2000 aC) celebravam uma festa da primavera utilizando o açafrão, como o comprova uma pequena laje encontrada em Hattusa, e cuja tradição ainda permanece hoje, na Turquia. 

Todas as culturas do ocidente até ao longínquo oriente, onde ela foi introduzida, citam a importância dada a esta planta, referenciando não só a sua utilização prática como, também, um valor transcendente, subtil e poético, tais como se podem entrever nestas palavras:


Se eu tivesse um palácio feito de pérolas, embutido com jóias, perfumado com almíscar, açafrão e sândalo, um puro prazer – ao ver isso, eu poderia perder-me e esquecer-Te, o Teu Nome não entraria na minha mente.

Sur Guru Granth Sahib

O açafrão era usado nos rituais de Elêusis onde os sacerdotes o utilizavam para preparar uma tintura chamada "crocin". A planta era, também, consagrada a deusas femininas, tais como a Ártemis (ou Artemisa) e Deméter, sendo usada como protectora do casamento e colocada na cama nupcial como auspício de um verdadeiro amor, daí a sua conotação às forças poderosas do amor, ponte intemporal entra a vida e a morte.


Pelas suas capacidades picantes, segundo a mitologia grega, Hermes usou o açafrão como afrodisíaco para despertar a energia e desejo sexual. É, também, uma flor particularmente útil para tratar problemas digestivos, associados aos signos de Câncer e Virgem, assim como a nervosos, a Gémeos e Peixes.


Na mitologia grega o valor simbólico do açafrão está presente em alguns mitos que se descrevem a seguir:



METAMORFOSE DE KROCUS

Um jovem amante e companheiro do deus Hermes foi morto acidentalmente por este último durante um jogo de lançamento de disco. A angústia do Deus pela culpa da sua morte fez com que o transformasse na planta do açafrão, cujos estigmas vermelhos representavam o seu sangue derramado.Fonte: Ovídio, Plínio.




CROCUS E SMILAX

Outra versão do mito relata a metamorfose do jovem Krocus em flor após a perseguição e jogo amoroso com a sua amada, a ninfa Smilax, nos bosques próximo de Atenas. A ninfa vai, contudo, perdendo o interesse por Krocus, facto que intensifica o seu ardor por ela. Neste desvario passional em que o amor de um mortal não pode ter continuidade, e está destinado a terminar, ele é, pela vontade dos deuses, transformado na flor de açafrão, cujas radiosas cores simbolizam a força do desejo pela bela ninfa Smilax. Deste mito advém a tradição greco-latina de colocar flores de açafrão sobre a sepultura dos amantes que morrem por amor.






BOUQUET DE PERSÉFONE

Neste mito a deusa Perséfone e uma ninfa estavam colhendo açafrão, violetas, íris, lírios e rosas num prado primaveril, quando a primeira foi raptada por Hades, deus do mundo inferior, e sujeita a ser sua esposa e viver com ele metade do ano.





SEDUÇÃO DE EUROPA


Zeus enamorado da princesa fenícia Europa espiou-a num prado verdejante, quando esta descuidada estava a colher flores. Nesse momento ele aproximou-se e, para não ser reconhecido, transformou-se num magnífico e dócil touro que assoprando uma flor de açafrão da sua boca a atraiu para perto de si permitindo o seu rapto.Fonte: Hesíodo
Segundo a mitologia grega e pelas suas características picantes esta planta está consagrada a Hermes que a usava para despertar a energia e desejo sexual. Porém, a planta também é associada a deusas femininas, tais como Artemisa e Deméter, sendo usada como protetora do casamento e por isso, segundo a tradição, colocada no leito nupcial como auspício de um verdadeiro amor. 
















O açafrão é por isso uma planta com um simbolismo duplo, manifeste na eterna dança dos opostos que sempre se reequilibram pelas forças da natureza, do amor e da sua perda, sempre ligada às forças que regem os ciclos intemporais entre a vida e a morte.

Fontes:

Symbolism of plants
Hinos Homéricos


terça-feira, 10 de janeiro de 2017

AGNOCASTO





A planta, na antiguidade, era sobretudo usada devido ao seu efeito anafrodisíaco, existindo desde há muito a crença de que o Agnocasto podia reprimir o ardor amoroso, daí a denominação grega de a-gonos (sem descendência) utilizada por Dioscórides.


Nas antigas festas gregas consagradas à deusa virgem Artemísia, a planta era utilizada pelos participantes, como símbolo de inocência e castidade e, posteriormente, em vilas da Grécia, é dada aos rapazes que desfilam nas procissões que, de forma simbólica, o devem manter vivo, tal como o estado de pureza, até ao final da cerimónia.





Na Idade Média, até ao séc. XV, mantinha-se a tradição que recomendava a quem quisesse viver de forma casta, que colocasse no leito um pequeno saco com as suas flores e sementes. 



Nessa época a designação inicial “agno” foi substituída, pelo latim medieval, por “agnus” (cordeiro), perdendo o seu sentido original.






Apesar da comprovada diminuição da excitação sexual o efeito terapêutico desta planta era reconhecido, nas mulheres, pela sua capacidade de tratar problemas ginecológicos, infertilidade e promover a lactação, enquanto, nos homens, a diminuição da líbido, ocasionava uma menor produção de sémen. Esse facto associado ao forte conceito de pecado atribuído à prática sexual pela igreja cristã, induziu, nos mosteiros, o seu uso pelos monges que o cultivavam abundantemente nos claustros, daí ser, também, conhecido por “pimenta de monge”. 


O Agnocasto é uma das ervas atribuídas a S. João pelas suas virtudes curativas, além de proféticas e protetoras da alma das tentações terrenas, sendo, por isso, apelidado de “lenho santo”.

Adaptado de Tratto da “Erbe e Piante del Cilento” D. De Santis

domingo, 8 de janeiro de 2017

ACÓNITO

O acónito (Aconitum napellus) é uma planta de elevada toxicidade conhecida desde tempos remotos por povos europeus e asiáticos que a utilizavam vulgarmente para fins bélicos, contra os inimigos, no envenenamento de flechas, espadas, punhais e lanças. Fontes históricas comprovam a legalidade da sua utilização na Grécia antiga.


O seu poderoso veneno está presente em todas as suas partes, embora a maior concentração se situe nas raízes. É interessante verificar que as formas das suas flores, apesar de belas, fazem lembrar um capacete de batalha; daí, a correspondência entre as suas capacidades mortais e as guerras ou, ainda, às emoções ligadas ao ímpeto da retaliação, como é o caso do amor carregado de culpa, sendo, por isso, conhecida pela flor da vingança.

MITOLOGIA E MAGIA

A antiguidade da utilização do acónito é comprovada pela sua fama ser relatada em histórias mitológicas greco-latinas. Ovídio conta que, no seu último trabalho, Hércules foi incumbido de trazer do Hades, o cão infernal Cerberus que impedia a saída do submundo, lutando e vencendo-o apenas com as suas próprias mãos. Nessa luta, da qual saiu vencedor, ao trazer o animal à luz do dia, fez com que este, raivoso e sem forças, ao sentir a luz , produzisse uma saliva venenosa que ao tocar na terra tivesse produzido o acónito. A própria tradição faz derivar a palavra acónito de Acona (em grego, significa "pedra", relação com os solos pedregosos onde a planta cresce), vila na Bitínia, no porto de Heracleia (mar Negro), local de origem da planta.


O acónito está associado a outros mitos, tais como o envenenamento de Teseu por Medeia, à ferida incurável de Quíron e ao sangue derramado, cheio de amargura, pela maldição lançada a Prometeu.
Dioscórides relata que o veneno das suas raízes era misturado com carne para envenenar os lobos, prática que permaneceu na Europa medieval associando-se ao mito do lobisomem pois, ao matar lobos, seria também fatal para os lobisomens (todo o lobo poderia ser um homem transfigurado). Por esse facto, o acónito, também é conhecido por “wolfsbane”.
O seu uso continha outras propriedades mágicas, entre elas a da invisibilidade, pois a flor, em forma de elmo de combate, serviria para iludir e evitar olhares indesejados, conferindo vantagens vingativas ao seu portador. E, livros de magia e feitiçaria citam outros poderes que incluem a capacidade de voar em vassouras ou, ainda, qualidades visionárias pelo seu efeito alucinogénio. Daí, também, lhe ser atribuída a possibilidade de desenvolver a sabedoria e inteligência quando as suas flores eram colocadas, durante o sono, sob a almofada.
Atualmente, é sabido que, apesar da sua beleza exterior, a presença da aconitina (potente alcalóide) presente na planta, são a causa da sua elevada toxicidade.


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