terça-feira, 11 de julho de 2017

MURTA





Myrtus L. é um género pertencente à família Myrtaceae que inclui, aproximadamente, 100 géneros e 3000 espécies que crescem em regiões temperadas, tropicais e regiões subtropicais.
Entre as múltiplas espécies do género Myrtus (mais de 100), certamente, nenhuma delas tem um significado cultural como a murta comum, Myrtus communis L., planta arbustiva verde de aroma agradável, nativa do Mediterrâneo e Ásia Menor (atual Turquia) onde foi considerada um símbolo de força e longevidade.

M. communis é a única espécie nativa da Europa e única do género encontrada no Hemisfério Norte encontrando-se espalhada por toda a região mediterrânica e do Médio Oriente, onde cresce selvagem sendo também cultivada.

É um arbusto perene que cresce a uma altura de cerca de 1 a 5 m. As folhas dispostas de forma oposta são ovadas-lanceoladas, 2-5 cm de comprimento, coriáceas, glabras, punctuate-glandular e inteiro e, quando esmagadas, têm um delicado e aromático odor. As flores são brancas em forma de estrela, possuem cinco pétalas, cinco sépalas e uma massa de estames em tufo, ocorrendo de junho a setembro. No final do verão, produzem frutos em forma de bagas de um preto azulado (ou raramente branco amarelado) amadurecendo em novembro. As sementes de M. communis não tem dormência, daí poder ocorrer germinação logo após a dispersão aproveitando as chuvas de outono e inverno durante os primeiros estágios cruciais de crescimento. Estas características podem ser consideradas vantajosas para maximizar a o sucesso da sua reprodução e sobrevivência nos climas mediterrâneos.


ETIMOLOGIA

Do ponto de vista etimológico a palavra “murta “apresenta-se similar na maioria dos idiomas europeus, e alguns não europeus, tais como: myrte (alemão), mirto (espanhol e italiano), myrte (francês), mirtia (grego moderno), myrt (russo), mrdeni (arménio) e murt (turco). Todos esses nomes referem-se ao myrtos do grego antigo [Μύρτος] ou myrsine [μυρσίνη] transmitido depois através do myrtus latino.

O nome deriva de Myron grego [μύρον] que significa bálsamo, crisma, pomada, podendo ser um empréstimo semítico relacionado ao hebraico para dedignar mirra que é uma resina proveniente da seiva seca de várias árvores, mas principalmente da espécie Commiphora myrrha. Outras plantas perfumadas possuem nomes científicos semelhantes, tais como Myristica (noz-moscada), Myrrhis ou Myrica.


SIMBOLOGIA

A murta apresenta-se como um arbusto típico do Mediterrâneo rico não só pelo seu valor simbólico e mitológico, revelado na frequência da sua presença em rituais e cerimônias da história antiga, como também planta importante no cotidiano das pessoas desta região de tempos imemoriais. No épico de Gilgamesh, conhecido como a história escrita mais antiga da Terra (mais de quatro milénios) encontra-se esta citação: "Ofereci incenso na frente do Monte-Zigurate. Sete vasos de culto coloquei…  deitei juncos, cedro e murta. Os deuses sentiram o cheiro …

 Aphrodite driving a chariot drawn by Erotes; attic red figure, c. 450-400 BC, 
Museo Archeologico Etrusco, Florence, Italy


The younger Kharites Eudaimonia, seated holding a necklace, and Pandaisia, carrying a

myrtle; attic red figure, ca 450-400 BC, British Museum, Londo




Na mitologia antiga, a murta era consagrada a Afrodite - deusa grega do amor, sexo e beleza - equivalente à Vénus romana ou à Ishtar mesopotâmica pois, pelas suas elegantes flores brancas, folhas sempre verdes e agradável perfume, era um símbolo de beleza e juventude. As informações na literatura grega anteriores a Plutarco (historiador romano de origem grega, AD 46- 120) que associam a murta a Afrodite são, contudo, escassas. Porém, aparentemente, existiram templos dedicados a Afrodite, onde a murta sagrada era cultivada.

Pausânias, viajante grego e geógrafo do século II dC, relata a presença da rosa e da murta em terras gregas e estabelece a relação da murta com Afrodite, Adónis e as Graças (acompanhantes de Vénus) referindo, no culto destas, a presença de ramos de murta no santuário de Elis (Grécia).

Segundo Ovídio (poeta romano, 43 aC - AD 17), Vénus teria surgido do mar coberta de murta, facto que explicaria a presença vulgar da planta junto à costa, relatando, também, que o seu filho, Eneias, teria iluminado o templo de sua mãe com a murta materna antes da realização dos jogos.

No submundo ele relaciona ainda a murta com aqueles que morreram de amor e que nele vagueiam desconsolados.

Aristófanes refere a murta, para além da hera e da videira, como a terceira planta favorita de Dionísio, deus do vinho, pois todo o adorador dionisíaco usava uma grinalda de murta nos seus rituais. Este deus foi um dos poucos que conseguiu trazer uma pessoa morta do submundo pois Hades, normalmente, era relutante em libertar os mortos. Dionísio conseguiu trazer a sua mãe, Sémele, embora o deus do submundo só lhe desse permissão para tal, se ele lá deixasse algo tão importante que pudesse substituir Sémele. Assim, Dionísio deu-lhe a planta da murta. Esta é uma das bases para a crença de que a murta pertencia tanto a Dionísio quanto ao mundo dos mortos.

Há também uma relação entre a murta a Boa Deusa, uma deidade romana muito antiga associada em exclusivo às mulheres, fertilidade, cura e virgindade.  As suas celebrações festivas eram realizadas no início de maio e nem mesmo aos animais do sexo masculino era permitida a presença nesta celebração.

Noutras versões do mito a murta foi excluída dos rituais porque, citam que essa deusa, esposa (ou filha) do deus Fauno, foi descoberta a beber vinho em segredo, tendo sido espancada até a morte por seu marido (ou pai) com galhos de murta.

A folha de murta quando observada em contraluz revela as glândulas que produzem o seu óleo volátil e perfumado, parecendo que foi perfurada muitas vezes com uma agulha. Um mito atribui esse facto à tragédia de Fedra quando, durante a sua paixão impossível e ilícita por Hipólito, costumava descansar ociosamente durante o dia sob a murta e perfurado as suas folhas com um gancho de cabelo.


VIDA QUOTIDIANA


Teofrasto (filósofo grego e botânico, c. 371- c. 288 aC) cita a murta em algumas ocasiões. Ele refere numa antiga recomendação que a oliveira e a murta necessitam de podas vigorosas para promover o seu crescimento e reprodução. A importância da poda para a frutificação é enfatizada. Ele também fala sobre a boa relação entre olivais e murtas que ao entrelaçarem as suas raízes, tornam o fruto da murta mais macio e doce enquanto a sombra da oliveira a protege do sol e do vento.

Os antigos persas também consideravam a murta como uma planta sagrada. Heródoto (historiador grego, c. 484 a 420 aC) na sua história narra a cerimónia de sacrifício persa em detalhe. Ele diz: "O sacrificador traz sua vítima para um local e depois invoca o nome do deus a quem ele pretende oferecer. É usual ter um turbante cercado com uma coroa de flores, vulgarmente com murta».
Heródoto menciona a murta associada a sacrifícios e ocasiões festivais, ele cita: “a murta estava espalhada nas estradas dos persas para celebrar a vitória sobre Atenas” …

Em Atenas, as grinaldas perfumadas de murta poderiam ser usadas em sacrifícios, banquetes e casamentos, e as suas bagas comidas como sobremesa. A associação da murta com Afrodite estabelece, também, a relação do aroma atrativo da planta com o desejo sexual.

Grinaldas de folhas, geralmente, de louro, azeitona, murta, aparecem na cunhagem de moedas, às vezes como símbolos e outras envolvendo figuras como guirlandas nas suas cabeças como sinal de perpetuidade da existência. Daí as coroas de louro, oliveira e murta, etc., com as quais os vencedores eram honrados nos jogos gregos e triunfos romanos, serem considerados como emblemas da consagração à imortalidade e não apenas marcas transitórias e ocasionais de distinção.

Plínio (antigo filósofo e autor-História Natural AD 23-79) relata que um comandante romano foi coroado com o mirto de Venus Victrix (Vénus Vitoriosa) numa vitória em que ninguém foi morto.

Em Atenas, os pilares que ficavam em frente às casas estavam decorados com ramos de louro ou marta. A sua relação com o amor ou festas era tema para canções, podendo contabilizar-se o seu uso em coroas dadas a poetas, associada ao louro, hera ou carvalho. 


Grinalda de murta grega, c.330 - 250 a.C

Na arte da ourivesaria os ourives criavam belos objetos artísticos decorados com murta. 
A grinalda de murta de ouro que foi descoberta numa tumba real, na Macedónia, é de uma beleza notável e data, aproximadamente de 340 aC.


RITOS FUNERÁRIOS

A murta também foi considerada uma árvore da morte, usada juntamente com menta e o alecrim, para compensar o cheiro da decomposição durante as celebrações fúnebres dos antigos gregos e romanos. A Electra de Eurípides menciona a murta várias vezes relacionando-a com os ritos funerários.


TRADIÇÕES

A murta ainda é um arbusto venerado por povos próximos embora de diferentes religiosidades.


Nas festas judaicas comemora-se um ritual que remonta aos tempos bíblicos, onde são utilizados os Lulav e Etrog, conhecidos como as” Quatro espécies". O Etrog é um limão e o Lulav contém diferentes tipos de galhos de árvores: Palmeira, murta e salgueiro.

As escrituras judaicas instruem os israelitas a tomar "o fruto de belas árvores" dizendo «ramos de palmeiras, ramos de árvore grossa e salgueiros do ribeiro e regozijem-se na presença de Deus por sete dias». A "árvore grossa" é interpretada como sendo a murta, representando as espessas florestas espinhosas que o os israelitas encontraram quando voltaram para Israel. Esses matagais foram muito difíceis de penetrar, pois embora a murta não tenha espinhos ela cresce em matas densas em montanhas de muitas regiões de Israel.
Na noite do sábado, os judeus acendem velas e queimam incenso usando durante as bênçãos diferentes especiarias. A murta foi chamada "A planta perfumada por excelência de Israel", sendo muitas vezes preferida, quando disponível.

No cristianismo, a murta foi dada como uma planta sagrada para A Virgem Maria, simbolizando a pureza e a fertilidade. Na primitiva tradição cristã, durante o matrimónio o casal era coroado pelo padre com coroas de murta que ele abençoava durante a cerimónia, exaltando a pureza inicial da ligação cristã.

Na tradição árabe existem, também, várias alusões a esta planta. Numa tradução de uma dessas compilações, Tibb-ul-Nabbi (Medicina do Profeta) está referido: "Se alguém lhe oferecer murta como presente, não recuse. É do céu".
Esta planta também é realizada em alta estima por Ibn Abbas que diz: "Quando o Profeta Noé desceu da Arca, a primeira coisa que ele plantou foi murta». E novamente do mesmo autor: "Adão partiu de Paraíso com murta, que é a rainha de todos os perfumes doces no mundo…». Ou ainda mencionada como planta medicinal: «O tratamento de uma entorse envolve também um fortalecimento do local por um emplastro feito de folhas de gergelim e murta»; ou, também, como xarope contra a tosse ou para eliminar a diarreia, sendo importante para surtir efeito juntar as sementes de murta a marmelo.

Durante muitos períodos da história, toda a Anatólia serviu como zona geográfica de fusão para diferentes civilizações e muitos dos atuais costumes tem as suas raízes nas crenças e religiões das culturas iniciais. 

Nas suas tradições há registos de que as gloriosas colinas e riachos e baías do mar Egeu eram adornada com murta. De acordo com referências, na Turquia os arbustos desta planta cresciam descontroladamente nas encostas rochosas e os seus frutos eram vendidos no mar Egeu em mercados de várias cidades do litoral turco.

Nas regiões costeiras da Turquia a murta era usada com frequência em ritos funerários para perfumar a água de lavagem do falecido. Em algumas aldeias o corpo é ainda envolvido em galhos de murta que, também, cobrem o fundo da sepultura antes do enterro. Nesses locais é comum dizer "estar abraçado à murta" para se fazer a referência a quem está perto de morrer. Outra tradição é colocar sobre os túmulos, nas alturas de visitas ou em feriados religiosos, galhos de murta. Este ritual é ainda comum em algumas cidades do Egeu, ou outras do interior da Anatólia, onde a murta ainda cresce naturalmente, sendo também observado que ela é vulgarmente plantada em cemitérios muçulmanos ao norte de Israel. De acordo com as crenças locais a murta compartilha e reduz os tormentos do falecido e proclama uma bênção ao amado Profeta. O simbolismo desta planta pode ser rastreado até aos antigos mitos da Anatólia que já foram arás citados.

Os seus rebentos e bagas foram usados ​​como especiarias desde tempos antigos na Anatólia. Uma água destilada perfumada é preparada a partir de suas folhas e flores para aromatizar frutas e sumos. As folhas e os frutos da murta são usados ​​para colorir lã e fibras, na tecelagem de tapetes, em várias áreas da Anatólia. A casca e a raiz são usadas na curtição do couro. A murta é também plantada para criar arvores de jardim e preferida para decoração em cerimónias tradicionais de casamento. Embora se saiba que tanto as bagas como as folhas são usadas para macerar um licor aromático, nas ilhas da Sardenha e da Córsega, o uso de bebidas alcoólicas não é praticado na Anatólia.


MEDICINA

Há amplas referências da murta em antigos textos egípcios como remédio para distúrbios urinários, dor, azia, inchaço, rigidez dos membros, tosse e para eliminar mucosidades no tórax. Na medicina copta há referências à utilização do óleo essencial de murta.

Para uma série de doenças cutâneas, Soranos (um médico grego de Éfeso, 1º-2º Século) menciona a murta para evitar a gravidez, recomendando untar o colo do útero com uma pasta de óleo de murta com chumbo branco para bloquear a passagem de esperma ou ainda a sua utilização por via oral. 
Galeno de Pérgamo (um médico romano e filósofo de origem grega, AD 129-200) transmite a informação sobre um pó (pó Flávios) para a disenteria que teria a seguinte composição: murta, rosas, bagas de zimbro, etc., tomadas em vinho diluído. Em alguns preparativos antigos o vinho de murta era mencionado como veículo na preparação de medicamentos. 

O médico bizantino Acetóis de Amida (Turquia), a partir do século VI, fala de uma mistura de incenso, murta e açafrão e rosas como fórmula para uma pílula para "cuspir sangue". 

Galeno, no seu livro De Alimentorum Facultatibus - prescreve a murta para curar queixas respiratórias, mordidas de aranhas venenosas e escorpiões, e muito mais, incluindo o suco das suas bagas cozidas misturadas com vinho para inflamações intestinais. 
A murta foi, também, uma das plantas que Dioscórides recomendou para problemas menstruais.

Na medicina popular turca, as folhas, frutas e óleo volátil de Myrtus communis foram usados para vários propósitos: as folhas para tratar hipertensão, hemorroidas, resfriados comuns, problemas cardíacos e uretrais, diarreia, dor reumática, edema nas extremidades, diminuir a glicose no sangue, eliminar pedras nos rins, estimular o apetite, fortalecer o cabelo de cabelo, curar feridas e ação hemostática.

Ao longo da história, a combinação da aparência atraente da flor de mirtilo, das suas bagas comestíveis, do seu cheiro doce e das suas propriedades medicinais fizeram dela uma planta muito atrativa e de elevado valor simbólico para quem vivesse nos locais onde foi encontrada. 


sábado, 8 de julho de 2017

MENTA - Hortelã


A hortelã, por vezes conhecida por hortelã romana, tem como nome científico
Mentha spicata Huds ou viridis L.

Na mitologia grega, Minta ou Menta (em grego antigo: Μινθη), era uma ninfa, amante de Hades, que vivia no rio Cocito, um dos rios do submundo.

A ninfa do submundo mantinha com Hades um relacionamento anterior ao rapto de Perséfone que terminou com a nova escolha do rei e a chegada desta para o matrimónio. A ninfa revoltada por ter sido preterida procurou em vão conquistar o amante, tentando que ele a desejasse de novo, convencendo-o da sua maior beleza. Deméter, mãe de Perséfone, não gostando da sua atitude, reduziu-a à dimensão de uma planta, a menta.

Outra versão deste mito diz que a ninfa por ser bela e manter uma relação amorosa ilícita com o rei, estando já este ligado a Perséfone, achava que poderia vir a tornar-se a nova rainha, prevendo a possibilidade de Hades a preferir. Por esse facto começou a gabar-se da sua situação até ser descoberta por Perséfone que, não contente com a situação de infidelidade, num ato de raiva a transformou na planta menta.

A menta fazia parte das plantas mais usadas nas celebrações fúnebres da antiga Grécia Antiga, junto à murta e ao alecrim, não apenas para atenuar o cheiro dos defuntos, mas também como bebida ritualista em Elêusis associada à eternidade da vida.

A menção a Menta, em alguns clássicos antigos:

“
Perto de Pylos, em direção ao leste, há uma montanha nomeada após Minthe que, segundo o mito, tornou-se concubina de Hades, e depois foi pisada por Kore [Perséfone], e transformada em hortelã, a planta que alguns chamam Hedyosmos. Além disso, perto da montanha há um recinto sagrado para Hades".

”

“
Perséfone mais tarde teve a magia de mudar a forma de uma mulher [Minta] na perfumada hortelã.



“
"Minta (Menta), dizem os homens, era uma donzela do mundo subterrâneo, a Ninfa do Cocito, e ela deitava-se no leito de Aidoneus (Hades); mas quando ele raptou a jovem Perséfone no monte Aitnaian [na Sicília], então ela protestou em voz alta com palavras arrogantes e enlouquecida pelo ciúme estúpido, e Deméter espezinhou-a com os pés, destruindo-a. Pois ela havia dito que era mais nobre de forma e mais excelente em beleza do que a Perséfone de olhos negros, e gabou-se que Aidoneus voltaria para ela e baniria os demais de seus salões: tal paixão caiu sobre sua própria língua. E da terra ramificou-se na frágil erva que leva seu nome.


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quarta-feira, 28 de junho de 2017

AÇUCENA



As açucenas (Gén. Lilium) representam um grupo de plantas com flores magníficas que aparecem no início do verão. Existe uma grande variedade destas plantas cultivadas, porém as espécies selvagens adquiriram um significado religioso muito especial que remonta a tradições muito antigas, sendo fascinante seguir as suas tradições culturais.
Entre várias espécies a açucena branca - Lilium candidum - ou açucena de Nossa Senhora – Madonna Lily (ou de Jerusalém) sempre foi a mais importante, tendo como habitat natural a área que corresponde à Palestina e Líbano, embora os fenícios ajudassem a sua expansão por todo o mediterrâneo oriental. No estado selvagem, em habitat próprio seco e rochoso, é hoje raramente encontrada, sendo embora bastante cultivada em jardins.
Uma das características mais evidentes da açucena é apresentar uma haste alta sem ramificação, folhas curtas, botões em posição vertical e flores que se mantém eretas com as pétalas ligeiramente pendentes, exalando uma agradável fragância quando desabrocham de maio a junho.

Flores de outras espécies como L. chalcedonicum que se encontram em antigas pinturas murais tem pétalas descaídas e são vermelhas brilhantes. Uma espécie europeia, L. bulbiferum é, também, frequente em pinturas medievais, apresentando flores de cor laranja forte embora eretas, tais como as de L. candidum.


SIMBOLISMO


O valor simbólico da açucena é muito antigo, estando presente em diversas culturas. Os antigos minoicos conferiam-lhe uma aura inspiradora e majestosa e nos impérios assírios e egípcios foram o emblema da soberania dos reis. No Cântico dos Cânticos de Salomão ela foi associada à juventude e inocência virginal das noivas e à flor hebraica de Salomão, a estrela de David do judaísmo.
Vila senhorial (Creta)                             Salão do Trono (Palácio Cnossos - Creta)
                                

Em Creta foram encontrados frescos mostrando plantas de L. candidum (1600 - 1500 aC) no que seria uma antiga vila senhorial, sendo possível interpretar que o propósito desta representação fosse assinalar que o senhorio dessa habitação tinha um estilo de vida nobre. Uma associação mais óbvia de açucenas com o poder está patente no salão do trono do Palácio de Cnossos, aproximadamente do mesmo período, onde nas paredes em redor do trono do sacerdote-rei, se observam grifos e flores estilizadas pintadas que poderão representar estas plantas.Também, na réplica da pintura mural “The Prince of the Lilies” se observam estas flores junto a um nobre ou rei – sacerdote, assim como na sua coroa e colar.

The Prince of the Lilies - Palácio Cnossos (Creta)


Akrotiri (Thera/Santorini) 

Um significado diferente para esta planta é expresso nos frescos escavados em Akrotiri (Thera/Santorini) em três paredes de um pequeno quarto onde se observa uma paisagem rochosa pintada com açucenas vermelhas e andorinhas.
Apesar da verticalidade das flores e das folhas curtas no fundo do caule, aspetos próprios do L. candidum (flor branca), verifica-se, neste caso, que a cor das flores é vermelha. Talvez as características da açucena branca e vermelha fossem combinadas de propósito nesta sala considerada uma antecâmara ritual da noiva, estando associada a cerimónias de casamento como representação simbólica da pureza na sua transição para a idade adulta. A açucena na sua forma branca e vermelha poderia, também, estar ligada ao culto de adoração de Ariadne, suposta deusa da vegetação de Thera, marcando em sinal de bênção o início do crescimento, prosperidade e fertilidade das colheitas.

Em épocas posteriores, no mundo grego e romano, a açucena foi considerado como o símbolo do amor sublime, da procriação e da glória, tendo da mesma forma participado em rituais nupciais.


Posteriormente, no período bizantino, surgem imagens da flor já associado a temas cristãos, nomeadamente na igreja de Santo Apolinário (perto de Ravenna, século VI dC) num grande mosaico aparece na zona mais elevada a face de Cristo e abaixo da cruz, o primeiro bispo de Ravena, Santo Apolinário cercado por uma paisagem paradisíaca de verdes prados, árvores, açucenas e rosas para significar que a glorificação de Cristo irradia na própria natureza.

Durante a Idade Média as açucenas vermelhas parecem ter sido um símbolo da Virgem Maria, embora as brancas se tenham tornado na flor particular da Anunciação, simbolizando a pureza de alma e castidade da futura mãe de Jesus.

Carlos Magno (812) ao proclamar éditos para os palácios imperiais, ordenou o cultivo de uma lista de 73 plantas herbáceas, utilitárias e medicinais, tendo mencionando a açucena em primeiro lugar. E, no seu poema Hortulus, o abade do mosteiro de Reichenau, Strabo (809-849 dC) elogiou as suas flores como um remédio contra mordeduras de cobra, acrescentando que o mesmo indicava a pureza da fé. 

Uma imagem bíblica refere que no terceiro dia de criação, após a separação da terra e do mar, árvores e plantas foram criadas, mencionando as açucenas e as rosas.

Expulsão de Adão e Eva do paraíso pelo Arcanjo Miguel - Giovanni di Paolo (1440)

Desde o final da Idade Média até ao Renascimento existem vários exemplos de pinturas onde açucenas brancas aparecem associadas a Maria, santos ou temas bíblicos, como está patente na obra de Giovanni di Paolo - Expulsão de Adão e Eva do paraíso pelo Arcanjo Miguel, estando este caracterizado pela presença de açucenas, rosas, cravos e romãs ou, ainda, a Anunciação da Virgem Maria pelo Arcanjo Gabriel de Leonardo da Vinci (1472 – 1475).


Anunciação da Virgem Maria pelo Arcanjo Gabriel - Leonardo da Vinci 

sexta-feira, 23 de junho de 2017

LÓTUS






O lótus de flores brancas ou rosadas - Nelumbo nucifera - da família Nelumbonaceae é uma planta cujo valor simbólico perdura há mais de 4000 anos em várias partes e culturas do mundo. É contudo na Ásia, subcontinente indiano e Sudeste Asiático, através da tradição budista, que este (lótus indiano) foi amplamente divulgado. 
Do ponto de vista biológico estas plantas vivem em águas calmas com caules e raízes mergulhadas na água e folhas e flores que flutuam à superfície.





No delta do Nilo, predominam duas espécies, o lótus azul ou lótus egípcio (Nymphae acaerulea) e o lótus branco (Nymphaea lotus), ambos libertando um aroma agradável. Estas plantas, contudo, tem um efeito narcotizante, devido à presença alcalóides (presença de compostos semelhantes à tropina e papaverina) sendo usadas em práticas xamânicas.









SIMBOLISMO


No Egipto, as flores do lírio de água azul (lótus azul) por abrirem durante a manhã e fecharem à tarde, tornaram-se um ícone do sol nascente em ação benéfica na contínua renovação da vida. Como símbolo do estado, lótus entrelaçados e plantas de papiro costumavam significar a união do Alto e Baixo Egipto.




O 'ankh', símbolo egípcio da vida eterna (possivelmente um nó mágico) aparece, por vezes, decorado com esta planta. A sacralidade do lótus no Egipto faraónico está, possivelmente, relacionada com os seus efeitos como droga alucinógena capaz de permitir comunicar com o outro mundo.


                                                            Flor de lótus - Mastaba (Abydos)


A planta era, também, utilizada em rituais funerários, como ícone religioso, aparecendo em diversos objectos cerimoniais ou ainda como elemento decorativo. Em várias tumbas foram encontradas imagens de lótus reproduzidos com bastante precisão em pedra calcária. As suas flores e vitualhas eram colocadas perto dos pés do defunto, aparentemente, para alimentar tanto o espírito como o corpo na vida após a morte.
No túmulo de Tutankhamon (Vale dos Reis, Egipto, 1347-1338 a.C.) Howard Carter encontrou coroas de flores secas, nas quais se encontrava o lótus azul e o caixão mais interno, continha um grande colar de flores, com fileiras de pétalas de lótus, símbolo de ressurreição.

No hinduísmo, desde tempos remotos, o lótus indiano foi uma planta particularmente sagrada. Foi considerado o útero da mágica criação do universo ou o berço de onde nasceram todos os deuses. 


Maitreya


No budismo, o lótus indiano tem um significado central, estando associado ao nascimento de Bodhisattva (Buda), daí ele estar várias vezes retratado sentado sob flores de lótus.
O lótus foi adotado como a flor da Índia não só por questões espirituais, mas, também, devido à sua fertilidade (relação à forma do gineceu), longa vida e sabedoria associada à riqueza dos seu variados usos culinários.

Uma vez introduzido no Egipto, o lótus indiano substituiu a espécie nativa no culto de Isis no primeiro século a.C. Isis era não só a deusa da proteção e uma mãe divina mas, também, a governante do submundo e da rainha do céu. A flor de lótus indiana era um dos seus mais importantes atributos.

Na igreja cristã também se verifica a importância do seu valor simbólico. No concílio de Éfeso (431 d.C), Santa Maria foi designada de “Theotokos” (a portadora de Deus) e na construção de igrejas a ela dedicada, foi associada a flor do lótus à sua imagem. 


FONTE

terça-feira, 20 de junho de 2017

LÍRIO



O lírio é uma flor muito apreciada desde a antiguidade e de elevada expressão simbólica. A elegância das suas flores tem inspirado poetas e pintores, continuando nos dias de hoje, pela riqueza das suas cores e beleza das formas, a estimular em vários aspectos a mentalidade humana.
A planta pertence ao género do mesmo nome, Iris, e à família das Iridáceas, sendo frequente ocorrer em zonas temperadas. A sua diversidade permite uma adaptação que vai desde lagos a regiões semidesérticas. No hemisfério norte está representada com cerca de 300 espécies.
A flor apresenta uma morfologia caracterizada por um perianto de seis tépalas, dispostas alternadamente, onde as externas se apresentam defletidas e as internas estão em posição elevada. Os estames têm forma de pétalas apresentando uma extremidade bifurcada e a planta é bulbosa, apresentando folhas que emergem junto ao solo.
Algumas espécies têm sido usadas, desde a antiguidade, para fins medicinais (rizomas) pelo seu elevado conteúdo em taninos e glicósidos de forte efeito emético e purgativo. Outras, como é o caso da Iris florentina, tem sido usada na perfumaria porque os seus rizomas libertam um perfume que se assemelha a violetas, enquanto que os rizomas da Iris pseudacorus, cozidos com um composto de ferro solúvel, produzem uma tinta preta intensa que era usada para tingir couro e tecidos.


SIMBOLISMO

No antigo Egipto as flores do lírio eram símbolos de vitória, domínio e poder, ocorrendo representações de flores estilizadas nos ceptros de vários faraós.



Iris Carrying the Water Across the River Styx to Olympus for the Gods to Swear - Guy Head (1793)


Na Grécia a palavra grega “iris” significava arco-íris, nome derivado da deusa Íris que era a personificação do arco-íris e mensageira dos deuses. Tal como o arco-íris que une a Terra ao Céu, esta deusa era uma mensageira entre os deuses e os seres humanos, servindo, também, de companhia para as almas femininas no caminho para o outro mundo. Numa pintura mural em Akrotiri (Santorini), séc. XVII a.C, Eurídice, esposa de Orfeu, aparece num prado fugindo de Aristeu, sendo mordida por uma serpente venenosa, com uma flor de lírio no seu colar, símbolo da morte que se aproxima.
Durante a antiguidade clássica o lírio foi uma flor preferida para colocar em sepulturas, tradição que persistiu na Turquia até o início do séc. XX com a utilização de variedades azuis. No antigo Japão, a íris azul, Iris ensata, era um símbolo de bravura.


Hugo van der Netherlandish Northern Renaissance (ca.1440-1482)
The Portinari Altarpiece central panel, (detail), 1475


Na idade média, em pinturas e tapeçarias, a planta ocorre como elemento apotropaico protegendo contra o poder e astúcia do diabo. Na Suécia, St Brigitte (1307-1373) associou, simbolicamente, as suas folhas agudas à dor da Virgem Maria.


O lírio tem sido representada na heráldica e em emblemas reais, na forma da Flor-de-Lis, frequentemente associada à monarquia francesa, onde representa a fé, sabedoria e heroísmo.


quinta-feira, 15 de junho de 2017

DULCAMARA





A dulcamara (Solanum dulcamara) é uma planta da família das Solanáceas que se apresenta na forma de uma trepadeira que pode atingir alguns metros de altura, quando se apoia noutras plantas para crescer. A dulcamara apresenta flores dispostas em cachos de coloração violeta azulada, com uma coluna central amarela e o seu fruto é uma pequena baga oval, de vermelho brilhante, que amadurece no outono.



As folhas têm um grande limbo oval e, tanto elas como o caule, apresentam um sabor inicialmente amargo passando depois a doce, propriedade agridoce que dá origem ao nome dessa planta – Dulcamara. Esse fenómeno deve-se à transformação de uma substância amarga glicosídica que, através da mastigação, por hidrólise enzimática se torna adocicada. Esta planta é usada para fins terapêuticos, com bons resultados, mas em doses controladas pois é considerada tóxica.


SIMBOLISMO

A particularidade de manifestar um sabor primeiro amargo que depois se torna doce conferiu-lhe um valor especial, transmitindo a mensagem de que a persistência em algo difícil poderá ser recompensada, no futuro, por uma crescente doçura, aspecto que a levou a ser considerada como um símbolo de constância e fidelidade, capaz de proteger do mal e, particularmente, associado ao pensamento cristão na Idade Média, sendo várias vezes retratada em pinturas e tapeçarias, por vezes associada à columbina.


Durante a restauração da igreja de S. Tomás (Leipzig – 2000) foram encontrados belos frescos decorativos (do séc. XV) onde a dulcamara é facilmente reconhecida na abóbada. A mesma planta foi, também, pintada em manuscritos com o mesmo propósito.


Na tapeçaria, a dulcamara aparece como motivo, tal como se verifica num fragmento na figura acima (Strasbourg,1500- 1510) onde uma senhora pesa a fidelidade (dulcamara) com uma balança na mão direita, verificando-se que o peso da planta não é equilibrado pelo ouro. Na mesma imagem, também, se observa a planta numa coroa de flores sobre a cabeça e, ao fundo, no chão. A ideia contida no texto presente no plano superior, alega que o verdadeiro amor supera a prata ou o ouro.





É interessante constatar que a relação desta planta com o amor fiel e verdadeiro aparece na conhecida ópera Elixir de Amor, de Donizetti, no nome do médico ambulante Dulcamara, vendedor de uma suposta poção amorosa com a qual Nemorino pretendia conquistar Adina.